quarta-feira, 25 de maio de 2011

Entrevista com Mauro Galvão

Mauro Galvão relembra tempos de Vasco, mas deixa coração de lado
Atual superintendente do Avaí fala sobre idolatria, Juninho Pernambucano, dupla de zaga atual, mas diz que nesta quarta o time catarinense vai vencer
Por Rafael Cavalieri

Aos 34 anos, em 1997, chegava ao Vasco Mauro Galvão. A idade avançada não gerava desconfiança, afinal de contas, a qualidade com a bola sempre foi a característica marcante do então zagueiro. E se alguém torceu o nariz, logo se arrependeu. Em seu primeiro ano na Colina, Galvão conquistou o Campeonato Brasileiro. Depois, vieram outras grandes conquistas, que o colocaram na galeria dos grandes ídolos do clube, como o Carioca de 1998, a Libertadores no mesmo ano, o Rio-São Paulo de 1999 e mais um Brasileiro, em 2000.

O passado de glórias no Vasco ninguém apaga, mas nesta quarta-feira, o coração terá de ficar de lado. Após deixar os gramados e não engrenar na carreira de treinador, Mauro Galvão virou dirigente e hoje tem o cargo de superintendente de esportes do Avaí, rival cruz-maltino na luta por uma vaga na final da Copa do Brasil.

Apesar de torcer pelo sucesso de seu trabalho, ele não esconde o carinho pelo Vasco, por sua torcida e também pelo Rio de Janeiro, cidade que sua esposa escolheu para morar com a família.

Neste bate-papo com o GLOBOESPORTE.COM, Mauro Galvão relembrou seu passado de glórias pelo Vasco, avaliou a dupla de zaga atual que, na opinião do técnico Ricardo Gomes, tem potencial para repetir o sucesso da parceria de Galvão com Odvan, comentou o retorno do antigo companheiro Juninho Pernambucano e, entre outros assuntos, admitiu saudade dos tempos em que jogava bola. Confira abaixo a entrevista:

GLOBOESPORTE.COM: Quando foi que você decidiu que deixaria de ser treinador para trilhar os caminhos de dirigente de futebol?

Mauro Galvão: - Tudo aconteceu naturalmente, não foi nada planejado. Após me aposentar, comecei na comissão técnica do Vasco. Em 2003, o Eurico Miranda pediu para eu assumir o cargo após trocar a comissão técnica. O clube vivia um momento complicado financeiramente, e eu tinha identificação. Foi a solução encontrada para acalmar os ânimos. Deu certo, fizemos um campeonato razoável. No ano seguinte, fui para o Botafogo. O panorama era o mesmo. Uma coisa é você contratar quem quer, e a outra é quem pode. O trabalho não desenvolveu. E ao mesmo tempo, fui conhecendo o outro lado.

Você ainda passou pelo Náutico e só depois foi assumir um cargo de direção no Grêmio. Como foi o convite?

- Fui percebendo que poderia dar minha contribuição nessa função. Apareceu o convite do Grêmio e, pelo meu passado no clube, aceitei. Foi legal. Infelizmente, a Libertadores em 2009 não veio, apesar da bela campanha na primeira fase e eu acabei saindo. O futebol tem essa cultura do imediatismo. Fui para o Vitória e fiquei apenas seis meses, mas tive participação no vice da Copa do Brasil de 2010. Agora estou no Avaí, que é um clube sério e faz um trabalho proveitoso da maneira que pode.

O que é mais difícil: marcar um rival como zagueiro, comandar um time na beira do gramado ou exercer as funções de dirigente?

- Depende. São vários fatores. Em campo você tem o prazer de fazer o que mais gosta. Como treinador você precisa preparar as atividades, analisar os rivais, avaliar estrutura, lidar com egos... São muitas responsabilidades. Como dirigente tem muito disso e vai além: você monta elenco, comissão técnica, por vezes tem de lidar com demissões e trocas. Mas por ter vivido 30 anos como jogador eu pude adquirir bastante experiência para trilhar esse caminho. Se fosse virar dirigente de vôlei, aí sim poderia ter dificuldade.

Vamos relembrar seus tempos de glória no Vasco. Você faz parte da galeria de ídolos do clube. Qual a importância do Vasco na sua vida?

- Foram anos maravilhosos. Cheguei ao clube em 1997 com 34 anos. Senti que era um momento interessante. Já conhecia a cidade e o Grêmio, meu clube anterior, vivia um momento ruim. Cheguei e encontrei um time muito bom e as coisas foram acontecendo de maneira maravilhosa. Foram títulos todos os anos. A cada temporada eu renovava meu contrato.

Você esperava tanto sucesso em São Januário?

- Sinceramente, não. O Vasco vinha de um ano razoável, sem grandes campanhas. Mas foi tudo se encaixando. Em 1997 a gente tinha jogadores como o Luisinho, o Juninho, Felipe, Pedrinho... Na frente, o Edmundo jogando muito, e o Evair, que foi fundamental para equilibrar o ataque. O time tinha técnica e vontade acima de tudo. A gente ia para cima mesmo, com velocidade e jogadas trabalhadas. Foi um grande time.

E na zaga era você e Odvan, uma das grandes duplas do clube...

- Pois é. Na época o Eurico disse para mim: "Vou trazer um jogador lá de Campos. O cara é forte e vai jogar do seu lado". Eu concordei e realmente deu certo. Eu tinha a técnica e ele compensava com a força.

Como foi o retorno a São Januário? Os torcedores o trataram com muito carinho, não é?

- Torcedor não é burro. Eles sabem que todas as vezes que vesti a camisa do Vasco eu honrei e fiz de tudo para o clube vencer. E sempre tive um comportamento exemplar, sem entrar em qualquer tipo de polêmica. Isso é raro hoje em dia. Mas foi emocionante ver o carinho. Até porque muitos não sabiam que eu estava no Avaí e me perguntavam o que fazia ali. Quando descobriam que eu estava pelo rival brincavam dizendo que queriam me ver tristes por um dia (risos).

A dupla de zaga atual do Vasco é formada por Dedé e Anderson Martins. Recentemente os dois foram eleitos os melhores do Campeonato Carioca e já foi falado que eles possuem as qualidades necessárias para repetir o que você fez com Odvan. Concorda?

- O Anderson foi meu jogador no Vitória e eu até o indiquei ao Rodrigo Caetano. É um zagueiro técnico, com o perfil necessário para brilhar no futebol carioca. E o Dedé também está jogando muito. Eles encaixaram e podem brilhar, mas tudo depende dos próprios companheiros. Jogávamos bem, mas somos lembrados pelas conquistas. Só espero que a conquista não seja agora, na Copa do Brasil (risos).

Você jogou com o Juninho Pernambucano no Vasco. Como vê o seu retorno ao futebol brasileiro após anos na França e no Qatar?

- Estou muito contente por ele. O Juninho é um símbolo do Vasco e precisa mesmo ser badalado. Mas ao mesmo tempo não pode ser exposto. Precisa de um plano para brilhar aqui. O nosso campeonato é complicado e congestiona em alguns momentos. Mas pela sua qualidade e profissionalismo tenho certeza de que vai brilhar novamente aqui. Sempre torci muito por ele.

Ver antigos companheiros como ele e Felipe aumenta a saudade de jogar bola?

- Aumenta sim. Mas já foi meu tempo. Estou com 49 anos. Eles têm hoje mais ou menos a idade que eu tinha quando cheguei ao Vasco em 1997. Fico feliz porque vejo eles desenvolvendo uma carreira longa como eu fiz. Sei que ajudei os dois de alguma forma.

Para finalizar, quais os planos futuros do Avaí?

- O primeiro é conquistar essa Copa do Brasil e depois continuar o bom trabalho. O clube tem projetos interessantes para ampliar o estádio, continuar a construção de um CT e entrar de vez na projeção nacional. Além, é claro, de fazer uma campanha cada vez melhor na Série A do Campeonato Brasileiro.

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