sábado, 14 de maio de 2011

A última do Sérgio da Costa Ramos

Sérgio da Costa Ramos - DC 14.05.2011

Do “enxerto” à maioridade

Agora, só faltam mais quatro jogos para o Avaí ser campeão do Brasil e mais uns oito para ser campeão da Libertadores de 2012.

Ou seja: logo nos encontramos em Dubai...

Brincadeiras à parte, se alguém disser que o Avaí não ganhou nada e que uma vitoriazinha – épica, embora – não merece todo esse foguetório, suspeitarei estar diante de alguém que cultive com o Leão uma velha e conhecida rixa.

Com a “fábrica” de fazer coisas avaiana reativada, minha memória encontra os escaninhos dos meus primeiros anos de torcedor. Acho que deveria ter uns quatro ou cinco anos quando ouvi pela primeira vez a palavra “Avaí”, pronunciada pelo barbeiro Sílvio Mello, corretíssimo profissional da tesoura, tido como alguém da família. Naquele tempo, os clubes locais disputavam bissextos amistosos com os “esquadrões” do Rio e de São Paulo. Perdiam por goleada. E não era incomum o Avaí pedir emprestado um craque do rival. Era o “enxerto”. Vi vários jogos de um Avaí enxertado – uma vez com o capitão Valério Mattos, que, na época, jogava no Figueira. Desentrosados, os reforços até chamavam a atenção dos visitantes, mas pouco mudavam o destino das partidas: e dá-lhe buscar bolas nos fundos das redes...

Figueirense “histórico”, o bom Mello tentou me cooptar com uma camiseta do “Alvinegro do Estreito”, desde que me mantivesse quietinho, enquanto ele operava a sua máquina de pinicar... Depois foi a vez do bom Ivo Montenegro, boníssima criatura, amigo da família e – aí é que estava o busilis – torcedor do Alvinegro do Estreito. Até jogara de centroavante, estilo “tanque”. Nem mesmo um jogo de “camisa” me seduziu. Quem o herdou foi meu irmão menor, que logo se regenerou e hoje é um bom avaiano – embora seja Botafogo, no Rio...

Depois das primeiras chupetas – e com tantas vogais naquele nome curto e agudo – não me foi difícil gritar “Avaí”, com o decisivo estímulo paterno. Minha estreia no Adolfo Konder, ainda não cognominado “Pasto do Bode”, há de ter sido lá pelos idos de 1954, nos meus tenros seis anos. Mas minha viva lembrança do Campo da Liga é dos anos 1960, quando o Avaí se escalava com uma defesa “rebatedora” (não confundir com “arrebatadora”), formada por Acácio, Binha, Bonga, Nery e Mirinho. Uma rebatida do Bonga reproduzia som semelhante ao daqueles antigos “gongos do cinema” – um porrete imenso, batendo num prato de metal pendurado...

Certa vez, Bonga mandou a bola para fora do estádio – e ela foi “visitar” a roda de dominó do Bar Topázio, para a gozação do pintor Ernesto Meyer Filho e sua voz de pássaro-ferreiro:

– Ô Bonga, se quéch limpá a nossa área, limpa! Mas não precisa desmanchá o dominó da “raça”, nééé, ô!!!

Quando mergulho no passado para conhecer as raízes do Avaí, percebo que não estou debruçado apenas sobre a história do clube. Ela reflete a minha própria história. Infância e adolescência se contam pelas escalações do time avaiano. Se era o “Loló” no meio-campo, então eu tinha 15 anos. Mas se o meio-campo fosse com Zenon, então eu já tinha 25...

Com a licença dos leitores alvinegros – que me orgulho de tê-los também –, permito-me a licença desta pequena celebração, certo de que o Avaí acaba de “fazer mais uma boa coisa”.

Depois do jogo de anteontem, Floripa já pode dizer:

– Acabou o tempo do “enxerto”. Com dois grandes clubes na Série A, já somos “maiores de idade” no futebol.

Aprendizado

A eliminação do poderoso São Paulo, tricampeão do mundo, por categóricos 3 a 1, produziu uma hecatombe no Morumbi e um colapso mental em alguns de seus jogadores. O goleiro Rogério Ceni, espécie de “alter ego” do Tricolor paulista, declarou que “procurava um buraco onde enfiar a cabeça, de tanta vergonha por ter sido eliminado desta maneira”... Deixou no ar a soberba dos que se consideram vencedores por antecipação. Rivaldo declarou-se “humilhado” por não sair do banco. Somente o jovem craque Lucas – que, vindo de longo tempo de inatividade, não jogou o que sabe – foi craque também nas declarações: “Não devemos esquecer os méritos e a qualidade do Avaí”.

Os grandes do Brasil precisam aprender a perder. Já não há abismos “técnicos” no futebol.

2 comentários:

  1. Muito bom texto, como tudo o que esse cara escreve. Ainda bem que é avaiano...

    Saudações azurras!

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  2. Que texto heim!
    O Sérgio da Costa Ramos me fez lembrar do passado, sorrir no presente e pensar que o Avaí é grande e com espaço para crescer mais ainda.

    Abs

    Fábio

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