terça-feira, 30 de agosto de 2011

Um tapa na cara dos jornalistas

 O Carnaval da ambulância (para todos nós, jornalistas, refletirmos)
Por GABRIEL GÓES BARREIRA*

A mão esquerda que ampara o rosto tenta disfarçar de si mesmo e de olhares alheios a vertigem e a dor.
Tenta apagar da mente os vultos e apagões que se infiltram na vista.
A cabeça parece dobrar de tamanho numa enxaqueca exponencial.
Reincidente. Denuncia um novo problema cerebral à vítima.
A mão esconde também sua preocupação. Os movimentos mal obedecem o comando nervoso. Na tentativa de relatar a falha, se dá conta de que as frases se dissipam na língua antes que cheguem aos ouvidos de seus inquisidores. “Qual é o seu nome? Lembra de mim? Diz para mim, qual o seu nome?”
Ricardo Gomes, ele jura responder, mas a boca não obedece. A voz perde a força. O ar exalado soa como o último suspiro de um saxofone desafinado, soprado por uma criança. O tempo se perde na tentativa de autoconhecimento de um novo corpo. Estranho. De um novo eu.
Agora, os policiais que o amparam são vistos pela metade. Não pela vertigem. A pálpebra direita se força a fechar, em consequência do acidente vascular cerebral.
Censurado por si próprio, se deixa dominar completamente pelo desespero.
Mudo, é incapaz de demonstrá-lo.
A impotência aumenta quando percebe que o lado direito não mais se movimenta.
Torna-se impossível ir sozinho até a ambulância.
Os curiosos e a imprensa à frente não permitiriam, de qualquer forma.
Policiais e médicos pedem distância. A movimentação alerta o técnico do Vasco da Gama para sua própria saúde. Crítica. Sem forças, ele é carregado até a porta lateral da CTI móvel.
Atrás dela, na porta de fundos, o fotógrafo  clica a imagem que será capa do caderno de esportes  no dia seguinte.
Seu gosto é discutível, mas sua presença é inegavelmente um contra-senso.
Afinal, na outra ponta do mesmo fenômeno, o repórter de TV abre o microfone e repassa a informação dos especialistas: a situação exige cuidado e distância para não deixar o doente ainda mais afobado. Pressão arterial: 19 por 12.
O zoom da câmera fotográfica seria suficiente. A invasão é desnecessária.
A imagem da transmissão ao vivo que ilustra a narração do repórter  se mantém do início ao fim da fala.
Depois disso também. Fixa na tela outro contra-senso. No empurra-empurra, o cinegrafista ignora o aviso e mantém Ricardo Gomes em quadro.
Uma legião de profissionais da mídia o rodeiam, clicando, filmando e perguntando.
Máquinas em punho sobre as cabeças.
Dezenas delas em volta da ambulância.
A tragédia quebra o protocolo e a Globo perde a exclusividade das primeiras entrevistas. O monopólio acordado com a CBF perde o sentido e repórteres de várias emissoras de rádio e TV cercam a ambulância.
No afã de informar, a mídia torna-se um obstáculo.
Pena que não haverá auto-crítica.
Acabada a partida, os melhores momentos das concorrentes não podem durar mais de um minuto e só vale mostrar o que aconteceu dentro de campo.
Fica impossível analisar a formação tática dos jornalistas, escalados no “abafa” pelos seus comandantes.
Mas, pelo replay, vê-se que ninguém largou o gravador para estender a mão ao ser humano inerte.
Nenhum jornalista abriu caminho para a ambulância.
Pelo contrário, formou-se uma barreira humana iluminada por flashes.
*Gabriel Góes Barreira é estudante de Jornalismo da PUC-Rio.
Retirado do blog do Juca Kfouri

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