terça-feira, 15 de maio de 2012

Para encerrar o assunto Regulamento.

Sinto-me obrigado a compartilhar com vocês pensamento a respeito da audácia das lamúrias do vice-campeão catarinense de 2012:

Engraçado.
Não vou me limitar ao óbvio e em si só esgotante argumento de que ninguém levantou essa celeuma quando referendaram a fórmula deste ano no Conselho Técnico, ou quem sabe nos últimos 88 anos, em que não tenho notícias de ter havido algum campeonato catarinense no sistema de pontos corridos - se houve, e nesse caso não serão mais que um ou outro de algumas décadas atrás, peço perdão pela ignorância.

Para me limitar ao período mais recente, não ouvi queixas em 2008, quando o Figueirense se sagrou campeão em virtude do mata-mata, mesmo tendo se posicionado atrás de Criciúma e Avaí na classificação geral.

Nem tampouco em 2003, quando o Figueirense conquistou o título também através dos playoffs, mesmo tendo se posicionado atrás de Caxias, Criciúma e Joinville.
Ou talvez em 1994, quando o Figueirense se sagrou campeão igualmente em virtude dos playoffs, tendo pontuado menos que Criciúma, Juventus e Tubarão.
Quando o Avaí venceu os dois turnos em 1998, mas ainda assim se obrigou a disputar um quadrangular final em que ficou em quarto, não me lembro de uma única voz de esperneio quanto ao regulamento, senão tão só madura e redobrada autopenitência pela má performance nessa fase final, que todos sabiam de antemão regra vigente. Apesar de conscientes da posse da mais técnica e regular equipe do campeonato, houve simples assunção de plena culpa pelo péssimo desempenho de cavalo paraguaio, porque sabido de todos que o torneio não se exauria em sua jornada regular, mas demandava estratégias que envolviam mesmo queimar menos cartuchos no começo para gastá-los mais adiante, em sua fase efetivamente decisiva. Postulado esportivo igualmente válido numa corrida, numa maratona ou numa luta, dentre infinitas outras modalidades.
Muito coincidentemente eu nunca ouvi choro em provavelmente metade dos estaduais em que o líder da fase classificatória não levou o caneco, ou dos perdedores nesses moldes em Copa do Mundo, Libertadores ou UEFA Champions League. Quem sabe seja interessante nós retroagirmos uma revisão de todos esses títulos? Mas é tudo o que ouço agora quando o soberbo Figueirense toma um tufo histórico de 5 gols numa final e empresta suas dependências para o rival levantar o troféu.
Tudo isso a despeito de contar com um orçamento não muito menor que de todos os demais disputantes somados, em virtude da distorção acarretada pelas cotas de televisionamento do Nacional, acachapantes ao caráter competitivo particularmente dos campeonatos regionais. Quem sabe uma aí sim relevante bandeira pela justiça a ser levantada em culto ao desporto?
É sempre sadia a prévia discussão sobre o que se privilegiar em futuros regulamentos, tensionando as preocupações com a meritocracia e a atratividade nos torneios: no esporte, deve se premiar a regularidade ou a superação, uma competência sustentada ou arrebatamentos homéricos?
Mas, no contexto imaculado de um baile tamanho que não permite sequer aos mais desavergonhados pensar em recorrer a subterfúgios tradicionais como de censura à arbitragem - e olha que assinto em haver vezes nas quais este argumento tem efetiva relevância -, suscitar tal discussão, após um século de silêncio, só no conveniente momento em que subjugado de forma inconteste, a meu ver configura, simplesmente e com inspiração nesse preciso Dia das Mães, uma postura que se corrige na infância: a de mau perdedor.
Este, para além da natural e menos significante derrota no campo esportivo, passa o recibo de uma muito mais grave prostração moral e, assim, é perdedor ao quadrado, revelando uma falha de formação que inquina a alma de forma permanente.
Como que querendo evidenciar que a imputação ora aventada não é leviana, o clube vice-campeão a ratifica, seja pela vinda à tona das pueris declarações de um certo dirigente, seja pelo incivil boicote a uma cerimônia de encerramento do certame.
Nesse momento em que extraio minha conclusão: o campeão, muito mais que o título épico conquistado no campo, deve comemorar o fato de ver seu espírito livre de semelhante tacanhez.


Abraço,
Gustavo Roberge Goedert

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